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Economia: Guerra pressiona inflação e reforça cautela dos bancos centrais

Economia: Guerra pressiona inflação e reforça cautela dos bancos centrais

Preço do petróleo se aproxima de 120 dólares por barril

As negociações de paz entre Estados Unidos e Irã não tiveram avanços concretos. No início da semana, o Irã submeteu, via mediadores do Paquistão, uma nova proposta para encerramento do conflito.

O plano prevê a reabertura do Estreito de Ormuz e o fim da guerra em troca da suspensão do bloqueio naval americano e postergação das discussões sobre o programa nuclear iraniano.

No entanto, Donald Trump não recebeu bem o documento, uma vez que a eliminação das capacidades nucleares de Teerã tem sido um dos principais objetivos da ofensiva conjunta entre Estados Unidos e Israel iniciada no fim de fevereiro.

Com a rejeição da proposta, os preços do petróleo (tipo Brent) se aproximaram de 120 dólares por barril, o patamar mais elevado desde meados de 2022.

Fed mantém juros em meio à piora no cenário de inflação

O banco central dos Estados Unidos (Fed) manteve a taxa básica de juros no intervalo entre 3,50% e 3,75%, conforme amplamente esperado.

A reunião teve a dissidência mais relevante desde outubro de 1992. Três diretores apoiaram a manutenção de juros, mas se opuseram à inclusão de um viés acomodatício no comunicado, sinalizando resistência a cortes de juros futuros.

Apenas o Diretor Stephen Miran votou por uma redução de 0,25 p.p.. O comunicado destacou que a inflação permanece elevada, em parte refletindo o aumento recente nos preços globais de energia.

Na coletiva de imprensa que sucedeu a decisão de juros, o Presidente do Fed, Jerome Powell, afirmou que o impacto da guerra no Oriente Médio sobre os preços “ainda não atingiu o pico”.

Os dados econômicos da semana corroboraram a postura cautelosa do Fed. O PIB do 1º trimestre de 2026 cresceu 2,0% em termos anualizados, acelerando ante elevação de 0,5% no 4º trimestre de 2025 — negativamente afetado pela paralisação do governo federal.

Por sua vez, a inflação ao consumidor (medida pelo deflator das despesas de consumo) atingiu 3,5% no acumulado dos últimos 12 meses, o nível mais alto desde maio de 2023. Além disso os pedidos semanais de seguro-desemprego caíram para 189 mil, o menor patamar desde setembro de 1969, reforçando a visão de resiliência do mercado de trabalho.

Os dados seguem apontando para um quadro de atividade sólida, inflação pressionada e mercado de trabalho aquecido. Esse cenário tende a sustentar a postura cautelosa do Fed e reforça nossa expectativa de que os juros continuarão no patamar atual por bastante tempo.

Assim como outros bancos centrais no mundo…

A semana foi marcada por decisões de política monetária ao redor do mundo. No Japão, na zona do euro e no Reino Unido, as autoridades monetárias também mantiveram postura conservadora, destacando o aumento das incertezas com a guerra no Oriente Médio.

O Banco do Japão (BoJ) manteve sua taxa de juros de referência em 0,75% ao ano, em votação dividida de 6 a 3. A autoridade monetária revisou sua projeção de inflação em 2026 (de 1,9% para 2,8%) e cortou a projeção de crescimento do PIB (de 1,0% para 0,50%).

Na mesma linha, o Banco Central Europeu (BCE) destacou que os riscos de alta para a inflação e de baixa para o crescimento se intensificaram.

O PIB da zona do euro cresceu apenas 0,1% no 1º trimestre deste ano, e a autoridade alertou que, quanto mais persistente o choque energético, mais fortes tendem a ser os efeitos de segunda ordem sobre salários e preços.

No Reino Unido, o Banco da Inglaterra (BoE) manteve sua taxa de juros em 3,75% ao ano, reconhecendo que a política monetária não tem capacidade de influenciar os preços de energia diretamente, mas que suas decisões serão calibradas para garantir o retorno da inflação à meta de 2% no médio prazo.

Emirados Árabes Unidos deixam a OPEP

Os Emirados Árabes Unidos anunciaram sua saída da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo).

A decisão reflete a insatisfação do país com as cotas de produção impostas pelo grupo, e o desejo de ampliar sua capacidade produtiva para 5 milhões de barris por dia até 2027.

No curto prazo, o impacto sobre os preços do petróleo deve ser limitado, uma vez que o principal fator de pressão vem do bloqueio do Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo global.

No médio prazo, a saída fragiliza a coesão da OPEP e abre espaço para aumento de oferta quando o conflito no Oriente Médio for resolvido, o que pode contribuir para uma trajetória de queda nos preços.

Enquanto isso, no Brasil…

Senado rejeita indicação de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal

O plenário do Senado rejeitou a indicação de Jorge Messias para assumir uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF), por 42 votos a 34.

Messias, que precisava de no mínimo 41 votos favoráveis, não ocupará a vaga na Corte deixada após a aposentadoria do ministro Luís Roberto Barroso.

De acordo com a XP, a derrota do governo deve manter em segundo plano outras nomeações pendentes, como é o caso das duas vagas de diretorias abertas no Banco Central.

O tema deve voltar ao radar do Palácio do Planalto somente depois de uma definição sobre a estratégia de atuação a respeito da vaga de ministro no STF.

Copom reduz a taxa Selic novamente em 0,25 p.p., para 14,50%

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central reduziu a taxa Selic em 0,25 p.p., para 14,50% ao ano, em linha com as expectativas.

O comunicado pós-decisão reconheceu a deterioração do cenário inflacionário — com projeções “distanciando-se adicionalmente da meta” —, incluindo no balanço de riscos a possibilidade de efeitos de segunda ordem da restrição de oferta de petróleo sobre as expectativas de médio prazo.

Ainda assim, o Copom sinalizou que a política monetária restritiva em curso tem sido eficaz em conter a atividade econômica, criando espaço para que o ritmo e a extensão do ciclo de cortes — de 0,25 p.p. ou 0,50 p.p. por reunião — sejam calibrados a depender do fluxo de novas informações.

A projeção do Copom para o IPCA de 2027 — atual horizonte relevante de política monetária — subiu de 3,3% para 3,5%, superando as expectativas do mercado. Nosso cenário-base projeta a taxa Selic em 13,50% ao final de 2026, com cortes de 0,50 p.p. nas reuniões de junho e agosto.

No entanto, uma calibração menor ou mais lenta vem se tornando mais provável, já que o cenário inflacionário pode se deteriorar adicionalmente nos próximos meses.

De fato, nossas projeções para o IPCA estão acima das do Copom tanto para 2026 quanto para 2027. Para uma análise detalhada sobre a decisão de política monetária, clique aqui.

Mercado de trabalho aquecido e inflação pressionada

O IPCA-15 de abril avançou 0,89% na comparação mensal, abaixo do consenso de mercado (0,98%).

A surpresa baixista concentrou-se no volátil item de passagens aéreas, que apresentou recuo na margem — movimento pontual que ainda não reflete a alta no querosene de aviação e deve se reverter nos próximos meses.

Em sentido contrário, os preços de combustíveis aumentaram e os de bens industrializados aceleraram mais do que o esperado, na esteira do choque global de oferta. Assim, nossa projeção para a inflação de 2026 – atualmente em 5,1% – tem viés de alta.

Em relação ao mercado de trabalho, o relatório do CAGED registrou criação líquida de 228,2 mil empregos formais em março, bem acima das expectativas (XP: 165 mil; Mercado: 149 mil), com melhora disseminada entre os setores.

Ademais, a taxa de desemprego, divulgada na PNAD Contínua, permaneceu em 5,6% entre fevereiro e março (série mensal e com ajuste sazonal). Neste contexto de desocupação nas mínimas históricas, os rendimentos reais do trabalho cresceram pelo oitavo mês consecutivo.

A combinação de mercado de trabalho aquecido com impulsos de renda e crédito deve sustentar a demanda (especialmente o consumo) no curto prazo.

Com isso, não prevemos alívio nas principais métricas da inflação de serviços, reforçando a necessidade de cautela por parte do Banco Central.

Arrecadação forte não impediu a deterioração do resultado primário em março

A arrecadação federal totalizou R$ 229,2 bilhões em março, alta de 5,0% em termos reais — o melhor desempenho para o mês desde 2000 —, sustentada por contribuições previdenciárias, IOF e imposto de importação.

Apesar das receitas robustas, o governo central registrou déficit primário de R$ 73,8 bilhões, muito pior do que o superávit de R$ 1,6 bilhão no mesmo período de 2025.

O pagamento massivo de precatórios explicou, em grande medida, essa piora na comparação anual. Excluída essa rubrica, o déficit teria sido de R$ 7,2 bilhões no mês passado.

Os dados fiscais ainda não refletem a recente alta nos preços do petróleo, que deve elevar substancialmente as receitas com royalties, nem as desonerações e subvenções implementadas pelo governo para mitigar o aumento nos preços dos combustíveis.

A projeção de déficit primário de R$ 44,3 bilhões em 2026 (-0,3% do PIB) deve ser revisada após a incorporação dos efeitos de medidas governamentais adicionais discutidas recentemente.

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