Na segunda-feira, 5 de outubro, o investidor que abriu o home broker viu uma cena rara: o Ibovespa subiu 7,70% em um único pregão e bateu recorde histórico, o dólar caiu mais de 4% e chegou a ser negociado abaixo de R$ 5, e os juros longos despencaram mais de 1 ponto percentual. Tudo isso na manhã seguinte ao 1º turno das eleições 2026, um lembrete de como a política mexe com a economia em tempo real.
Mas o que esse movimento realmente diz sobre o país? E, mais importante, o que ele não diz? Neste artigo, deixamos opiniões políticas de lado e vamos direto aos fatos e dados: o que aconteceu nos mercados, por que eles reagem assim e quais indicadores você pode acompanhar para entender o cenário até o 2º turno, em 25 de outubro, e depois dele.
Atualizado em 14 de outubro de 2026, com dados de fechamento até 13/10.
Resumo rápido: eleições 2026 e economia em 6 pontos
- Resultado do 1º turno (TSE): Flávio Bolsonaro (PL) teve 47,03% dos votos válidos e Lula (PT), 45,16%. Os dois disputam o 2º turno em 25 de outubro de 2026.
- Bolsa: o Ibovespa fechou 5/10 em alta de 7,70%, aos 206.911 pontos, depois de tocar a máxima histórica de 209.605 pontos durante o pregão.
- Dólar: recuou 4,12% no mesmo dia, para R$ 5,0022, e fechou abaixo de R$ 5 em 6/10 (R$ 4,9745), menor nível em quase cinco meses.
- Juros futuros: o DI para janeiro de 2035 caiu de 14,13% para 12,80% em um dia.
- Pano de fundo: IPCA de 4,58% em 12 meses (acima do teto da meta), Selic em 13,75% e dívida bruta em 82,9% do PIB.
- Lição principal: o mercado reage a expectativas, e expectativas mudam. Acompanhar indicadores é mais útil do que tentar adivinhar o resultado.
O que aconteceu no 1º turno: os números oficiais
Segundo a totalização final do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), com 100% das seções apuradas, o 1º turno da eleição presidencial terminou assim:
| Candidato (partido) | Votos válidos | Total de votos |
|---|---|---|
| Flávio Bolsonaro (PL) | 47,03% | 56,1 milhões |
| Lula (PT) | 45,16% | 53,9 milhões |
| Demais candidatos (somados) | 7,81% | 9,3 milhões |
A abstenção ficou em 21,1% do eleitorado. A diferença entre os dois primeiros colocados foi de cerca de 1,9 ponto percentual, e o 2º turno acontece no domingo, 25 de outubro.
Para o mercado financeiro, o dado que mais pesou não foi apenas quem passou para a próxima fase, mas a distância entre o resultado e o que as pesquisas indicavam. Como destacaram analistas ouvidos pela imprensa, o desempenho veio diferente do que parte do mercado esperava, e é justamente a surpresa que move os preços. Outro fator citado foi a nova composição do Congresso, que influencia a capacidade de qualquer governo aprovar medidas econômicas a partir de 2027.
A reação do mercado em três atos
Ato 1: a euforia (segunda-feira, 5/10)
O primeiro pregão após a votação foi de movimentos raros em intensidade:
- Ibovespa: +7,70%, aos 206.911,89 pontos, com máxima intradiária recorde de 209.605,70 pontos.
- Dólar à vista: −4,12%, a R$ 5,0022.
- DI janeiro/2028: de 13,51% para 12,67% (−84 pontos-base).
- DI janeiro/2035: de 14,13% para 12,80% (−133 pontos-base).
Os destaques de alta ficaram com ações mais sensíveis aos juros domésticos, como bancos e varejo. Já exportadoras como Vale e siderúrgicas recuaram levemente, em parte porque um real mais forte reduz o valor em reais das receitas em dólar.
Ato 2: a realização de lucros (terça-feira, 6/10)
No dia seguinte, o Ibovespa caiu 0,52%, para 205.835 pontos, um movimento clássico de realização de lucros depois de um rali forte. O dólar, por outro lado, continuou cedendo: fechou em R$ 4,9745, a menor cotação em quase cinco meses. Os juros futuros também recuaram mais alguns pontos-base.
Ato 3: a acomodação (semana seguinte)
Em 13 de outubro, o Ibovespa fechou em 206.887 pontos (−1,04% no dia), acumulando alta de 11,03% em outubro e de 28,4% em 2026. O dólar comercial voltou para a casa dos R$ 5,02. Ou seja: depois do choque inicial, os preços passaram a oscilar em um novo patamar, à espera de novas informações.
| Indicador | Antes do 1º turno | 5/10 | 13/10 |
|---|---|---|---|
| Ibovespa (pontos) | ~192 mil* | 206.912 | 206.888 |
| Dólar (R$) | ~5,22* | 5,00 | 5,02 |
| DI jan/2035 | 14,13% | 12,80% | — |
*Valores aproximados, calculados a partir das variações do dia 5/10. Fontes: B3, CNN Brasil, O Povo.
Por que o mercado reage tanto às eleições?
Uma forma simples de entender: o mercado não vota, ele precifica. Cada ação, título público ou cotação de moeda carrega uma estimativa sobre o futuro. Quando uma informação nova muda essa estimativa, o preço se ajusta, às vezes de forma brusca.
Em eleições, três canais concentram a maior parte dessa reação:
- Percepção fiscal: investidores tentam estimar como a dívida pública vai evoluir nos próximos anos. Se a expectativa é de contas mais equilibradas, o risco de emprestar ao governo cai, e os juros de longo prazo recuam.
- Prêmio de risco: incerteza tem preço. Quando ela diminui, mesmo que parcialmente, o investidor aceita uma remuneração menor para manter ativos brasileiros. Isso tende a valorizar a bolsa e o real.
- Fluxo de capital estrangeiro: uma melhora na percepção de risco pode atrair recursos de fora para a bolsa brasileira. Mais dólares entrando no país aumentam a oferta da moeda e pressionam a cotação para baixo.
É importante frisar: esse movimento não é uma “torcida” do mercado. Como lembrou um analista após o 1º turno, os investidores reagem às perspectivas econômicas das propostas, como controle fiscal, trajetória dos juros e segurança jurídica, e tentam antecipar como elas afetariam o resultado das empresas. Se a leitura mudar, os preços mudam também.
Cuidado com a euforia: o que a história ensina
Quem acompanha o mercado há alguns ciclos eleitorais já viu esse filme. Em 3 de outubro de 2022, um dia após o 1º turno daquele ano, o Ibovespa subiu 5,5% (a maior alta diária desde 2020) e o dólar caiu cerca de 4%. O resultado do 2º turno, semanas depois, foi diferente do que o rali havia sugerido, e os preços tiveram de se reajustar.
A lição não é sobre candidatos, e sim sobre método: a reação a um 1º turno reflete probabilidades naquele momento, não certezas. O próprio Citi alertou, após a votação de 2026, que a incerteza eleitoral provavelmente persistirá até o 2º turno. E a margem entre os candidatos é estreita.
O pano de fundo que não muda com a urna
Eleições mexem com expectativas, mas o ponto de partida da economia é o mesmo para quem vencer. E ele traz desafios relevantes:
Inflação acima do teto da meta
O IPCA de setembro subiu 0,82%, acima dos 0,60% esperados, segundo dados do IBGE. A alta foi puxada pela energia elétrica (+7,98%, com o fim do Bônus de Itaipu), passagens aéreas e alimentos como tomate e batata. Com isso, a inflação acumulada em 12 meses foi a 4,58%, acima do teto de 4,5% da meta.
Juros ainda altos, mas em queda
Em 16 de setembro, o Copom cortou a Selic em 0,25 ponto, para 13,75% ao ano, o quinto corte seguido do ciclo. A próxima reunião está marcada para 3 e 4 de novembro, já depois do 2º turno.
Dívida pública em alta
A Dívida Bruta do Governo Geral chegou a 82,9% do PIB em agosto, segundo o Banco Central, com alta de 4,2 pontos percentuais no ano. O principal motor foi o custo dos juros nominais.
O que o mercado projeta (Boletim Focus de 13/10)
| Indicador | Semana anterior | Focus 13/10 |
|---|---|---|
| IPCA 2026 | 5,01% | 5,22% |
| IPCA 2027 | 4,30% | 4,30% |
| Selic fim de 2026 | 13,50% | 13,25% |
| PIB 2026 | 1,85% | 1,85% |
| Dólar fim de 2026 | R$ 5,20 | R$ 5,15 |
Repare no detalhe: na mesma semana, os economistas elevaram a projeção de inflação, mas reduziram a de Selic e de dólar. É um retrato de como o cenário eleitoral (que alivia câmbio e juros) convive com pressões de preço de curto prazo (energia e alimentos).
Painel do investidor: 7 indicadores para acompanhar até o 2º turno (e depois)
Em vez de tentar adivinhar o resultado de 25 de outubro, uma postura mais útil é montar o seu próprio “painel de bordo”. Estes são os indicadores que mais revelam como o mercado está lendo o cenário:
- Curva de juros futuros (DI): é o termômetro mais sensível do risco fiscal. Observe os vencimentos longos, como janeiro/2035. Queda indica mais confiança nas contas públicas; alta indica cautela.
- Dólar e PTAX: o câmbio resume a percepção de risco e o fluxo de capital. Movimentos fortes em poucos dias costumam sinalizar mudança de humor.
- Ibovespa e fluxo estrangeiro na B3: mais do que a pontuação, veja se o capital externo está entrando ou saindo. A B3 divulga esse dado diariamente.
- Risco-país (CDS de 5 anos): mede quanto o investidor global cobra para se proteger de um calote do Brasil. É o “seguro” da dívida brasileira.
- Boletim Focus: publicado semanalmente pelo Banco Central, reúne as projeções de economistas para inflação, Selic, PIB e câmbio. Mudanças de semana a semana mostram para onde as expectativas estão indo.
- IPCA-15 de outubro: a prévia da inflação, divulgada no fim do mês, vai mostrar se as pressões de energia e alimentos persistem.
- Comunicado do Copom (3 e 4 de novembro): a primeira decisão de juros pós-eleição. O tom do texto pode indicar se o ciclo de cortes continua no mesmo ritmo.
Uma dica prática: em vez de olhar esses números todos os dias com ansiedade, reserve um momento fixo na semana (por exemplo, a segunda-feira, dia do Focus) para revisar o painel. Tendências importam mais do que oscilações diárias.
O que isso significa para os seus investimentos
Cada perfil de investidor sente o período eleitoral de um jeito. Alguns pontos educativos para ter em mente:
- Renda fixa e marcação a mercado: quando os juros futuros caem, títulos prefixados e atrelados à inflação (como os do Tesouro Direto) se valorizam antes do vencimento. O inverso também vale. Quem pretende levar o título até o fim recebe a taxa contratada, independentemente das oscilações.
- Dólar como diversificação: educadores financeiros lembram que a queda recente da moeda não é motivo para abandonar a exposição ao exterior, que cumpre papel de proteção na carteira.
- Bolsa e volatilidade: movimentos de 5% ou 7% em um dia podem acontecer nos dois sentidos. Fazer aportes graduais, em vez de concentrar tudo de uma vez, é uma forma de reduzir o risco de entrar no pior momento.
- FOMO é mau conselheiro: decidir por medo de “ficar de fora” de um rali costuma levar a escolhas incompatíveis com seus objetivos e seu perfil.
Este conteúdo é informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Avalie seu perfil e, se necessário, consulte um profissional certificado.
Volatilidade também mexe com o seu Imposto de Renda
Um efeito colateral de períodos agitados é que muita gente opera mais: compra, vende, aproveita uma alta, zera uma posição. E cada operação tem consequências tributárias. Vale relembrar as regras que seguem valendo em 2026:
- Isenção de R$ 20 mil: vendas de ações no mercado à vista de até R$ 20 mil no mês (swing trade) são isentas de IR sobre o lucro. Passou desse valor, o lucro inteiro é tributado.
- Alíquotas: 15% sobre o lucro no swing trade e 20% no day trade, que não tem isenção.
- DARF: o imposto é apurado mês a mês e pago via DARF (código 6015) até o último dia útil do mês seguinte.
- Prejuízos: perdas podem ser compensadas com lucros futuros da mesma modalidade, desde que estejam devidamente registradas.
Para entender o que mudou (e o que não mudou) na tributação dos investimentos neste ano, confira também o nosso guia sobre a Reforma Tributária 2026 e o IR dos investimentos. E, se a sua rotina de operações ficou mais intensa, a Mycapital calcula o imposto, gera o DARF e controla seus prejuízos a compensar automaticamente.
Perguntas frequentes sobre eleições 2026 e economia
Como o mercado reagiu ao 1º turno das eleições 2026?
Com forte otimismo. No dia 5 de outubro, o Ibovespa subiu 7,70% e renovou a máxima histórica, o dólar caiu 4,12%, para cerca de R$ 5, e os juros futuros de longo prazo recuaram mais de 1 ponto percentual.
Por que o dólar caiu depois do 1º turno?
Analistas atribuíram a queda à melhora na percepção de risco do país e à expectativa de entrada de capital estrangeiro na bolsa, o que aumenta a oferta de dólares no mercado brasileiro.
A alta da bolsa garante o resultado do 2º turno?
Não. Os preços refletem probabilidades em um dado momento. Em 2022, o mercado também subiu forte após o 1º turno e precisou se reajustar depois do resultado final. A margem entre os candidatos em 2026 é estreita.
Quais indicadores acompanhar no período eleitoral?
Os principais são a curva de juros futuros (DI), o dólar, o fluxo estrangeiro na B3, o risco-país (CDS), o Boletim Focus, o IPCA-15 e a decisão do Copom de 3 e 4 de novembro.
As eleições mudam a inflação e a Selic no curto prazo?
Não diretamente. A inflação de curto prazo é influenciada por fatores como energia e alimentos. Mas a eleição afeta expectativas e o câmbio, que, com o tempo, influenciam a inflação e as decisões do Banco Central.
Conclusão: termômetro, não bola de cristal
O 1º turno das eleições 2026 mostrou, mais uma vez, a velocidade com que o mercado reprecifica expectativas: em um único dia, bolsa, câmbio e juros fizeram movimentos que costumam levar meses. Mas os fundamentos (inflação acima da meta, juros elevados e dívida em alta) seguem sobre a mesa, qualquer que seja o resultado de 25 de outubro.
Para o investidor, a melhor estratégia não é tentar adivinhar a urna, e sim entender o que cada indicador está dizendo, manter a carteira alinhada aos seus objetivos e não deixar a emoção, nem o Imposto de Renda, pegar você de surpresa.
Fontes: Tribunal Superior Eleitoral (TSE); IBGE (IPCA de setembro/2026); Banco Central do Brasil (Boletim Focus de 13/10/2026, Estatísticas Fiscais de agosto/2026 e comunicado do Copom de 16/09/2026); B3; CNN Brasil; Agência Brasil; O Povo. Dados consultados em 14/10/2026.
